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sábado, 24 de janeiro de 2009

interessante se notar que quando nós ensinamos os nossos para que não sejam vítimas de bullying, nem nos preocupamos em ensinar, antes de tudo, que eles não pratiquem isso

Bullying

Por Jorge de Lima

Ligo o rádio e ouço uma propaganda de café que diz: “O preto que todo mundo quer na mesa”; “O preto que todo mundo gosta”. Não acredito que uma empresa séria, de renome em Goiás, tenha aceitado esse tipo de anúncio como forma institucional de divulgação do produto. Menos ainda quero crer que publicitários tenham desenvolvido uma campanha que denote preconceito velado ou declarado de forma subliminar?
Bullying é um termo inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e que podem ser repetidos, praticados por grupos ou um indivíduo. O termo deriva da palavra inglesa bully, que significa valentão. No bullying um dos principais objetivos é o de intimidar ou agredir outro indivíduo que se mostre em situação de desproteção ou incapacidade para se defender. Assim, o bullying é praticado especialmente com a intenção de mostrar força e uma capacidade maior que a de um adversário. Toda forma de manifestação de preconceito quando expressa é bullying. O bullying liga-se diretamente a nossos instintos, em especial ao instinto de poder, de forma extremamente primitiva em uma resposta instintiva de ataque e fuga, instinto este presente em qualquer inseto ou animal vivo. No bullying a força bruta é usada tanto para agredir quanto para humilhar qualquer um que se mostre diferente ou mais frágil.
A inveja é um componente essencial do bullying, especialmente quando o alvo mostra, a qualquer nível, uma capacidade superior à do agressor. Qualquer aspecto digno de inveja é o suficiente para despertar a raiva e a consequente agressão, sobretudo em indivíduos que não têm como reagir.
O bullying na adolescência e na puberdade é muito comum. Faz parte do processo de afirmação da individualidade, quase que como um ritual de iniciação no qual um jovem deve se afirmar em sua diferença essencial. Saber lutar e se defender é parte essencial da vida. Porém, o fenômeno do bullying vai além dos princípios básicos de igualdade e respeito. Ele fomenta o egoísmo, o preconceito, a agressividade, a tirania, a falta de limites e de bom senso.
Hoje, o bullying é comum no meio religioso, na educação e até no desporto, especialmente porque nossa sociedade é preconceituosa, e a maior parte das pessoas é meramente instintiva. Em uma sociedade violenta, agressiva, em que o sadismo é agente passivo de convívio – vide nossos telejornais e toda a cultura ligada ao medo amplamente estimulada. Neste cenário de horror é natural que crianças, adolescentes e jovens, estimulados pela violência introjetada, expressem tudo isso de alguma maneira, em especial em quem não pode reagir. Trata-se de um processo de “fabricação” de agressores e agressoras, nossa futura estatística da violência.
Na prática da psicoterapia em meu consultório esbarrei, inúmeras vezes, com pessoas que entraram em quadros de fobia, pânico ou depressão por bullying na infância, adolescência ou na vida adulta. Geralmente pessoas com profundos conflitos, com sua autoestima abalada, com severos traumas por agressões ou humilhações vividas e revivenciadas psiquicamente, tornando-se como fantasmas no espírito dos indivíduos. Sem contar a centena de casos de neurose ou de alta persecutoriedade gerada na psique de quem foi agredido inúmeras vezes pelo simples fato de ser diferente – “O preto que todo mundo gosta”.
Em meios segregados, como negros, homossexuais, deficientes, pacientes psiquiátricos, a carga de preconceito social torna o bullying frequente, expressando por vezes a antipatia do preconceito de muitos a um determinado grupo ou a um determinado indivíduo. Uma espécie de catarse coletiva de agressividade frente a diferenças que ameaçam a psique de uma pessoa essencialmente invejosa.
Hoje, nossa legislação protege de forma ampla qualquer indivíduo que seja vítima de agressividade. Porém nossa sociedade não para de produzir, em série, pessoas agressivas, especialmente por nossa cultura ligada ao medo. A punição dos agressores não vai resolver os traumas gerados a um indivíduo.
Todavia devemos ressaltar que muitas pessoas tornam-se gigantes em nossa sociedade pelo fato de na infância terem vivenciado uma alta carga de preconceito ou segregação. Muitos saem fortalecidos do processo de preconceito. Outros tantos sucumbem.
A terapia que indicamos para pessoas que sofreram de bullying é semelhante à terapia de pessoas que sofreram severos traumas em suas vidas. O trauma gerado não pode ser apagado, porém seus efeitos negativos podem ser trabalhados. De uma certa maneira estas vivências ligam-se ao preparo de um indivíduo para seu futuro, para o confronto com seu destino.

Jorge de Lima
escreve aos sábados neste espaço

Fonte: http://www.dm.com.br

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