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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dia da Terra: Esqueçam tudo o que foi dito para trás. Godot voltou

Atualização retificação

Ah, esqueci de dizer que, dentre os 70 blogs páginas que compõem esta obra apenas a de número 66 não será atualizada
(    ) Em branco
Eternamente em branco, de forma que esta obra é composta por 69 páginas mas o rosto capa spin túnel, ah como estou feliz

Vale a partir de agora
Hoje é o meu primeiro dia neste planeta como Godot
Godot voltou:

Análise da Obra Esperando Godot (Samuel Beckett) - por Mari Santoro

              Assim como Goethe, Samuel Becket é um dos meus escritores favoritos. Sua obra é impactante e logo de início causa sentimentos opostos em seus leitores; hás os que se encantam e se identificam com a obra e há os que criam verdadeira aversão a este  tipo de leitura . A peça Esperando Godot é a que mais me instiga a refletir e por isso gostaria de falar um pouco sobre ela aqui no blog...  

               

                A obra artística mais importante de Samuel Beckett, Esperando Godot é um espelho da condição humana. Por meio de um diálogo cômico o autor expressa a tragédia e a angústia de dois mendigos, Vladimir e Estragon, que se encontram diariamente para esperar pelo misterioso e sempre ausente, Godot.
Com recursos metateatrais, Godot revolucionou a dramaturgia do século XX por representar cenicamente a poética da negação e da redução e por apresentar o universo árido e inóspito da narrativa beckettiana nos palcos teatrais.
 Espetáculo impactante, original e extraordinário que chega ao centro da culpa, da desesperança e do desconforto do homem altamente “civilizado”, que se ocupa em realizar ações inúteis e permanecer na mesma indolência e imobilidade de sempre. Beckett expressou claramente e poeticamente o vazio que cerca e assombra o ser humano e sua obra tornou-se um importante meio de reflexão sobre os valores existenciais do homem moderno.


                            APRESENTAÇÃO DA OBRA:


                                     Esperando Godot - Dir. Gabriel Vilela- Teatro Sesc Paulista (2006) 


          Obra mais importante da carreira literária de Samuel Beckett, Esperando Godot foi escrita em francês, em 1952 e estreada pela primeira vez no Théâtre de Babylone, em Paris, em 1953, sob a direção de Roger Blin. Godot foi uma espécie de divisor de águas da história da dramaturgia.

“Estragon: estamos sempre achando alguma coisa, não é, Didi, para dar a impressão de que existimos?”                                                                   
                                                            (Beckett em Esperando Godot)

Uma peça dessa natureza provoca as mais diversas tentativas de compreensão pois age em torno da espera e da negação; processo árduo e inútil. As repetições dos gestos e dos diálogos apresentados em cena reforçam a angústia e o desespero do homem ao levar uma vida insignificante e ao esperar permanentemente por algo incerto, porém essencial para a sua sobrevivência.
Esperando Godot, paradoxalmente, não é uma obra cômica e nem trágica e ao mesmo tempo é. Por este motivo é praticamente impossível qualificá-la.
O autor utiliza-se do humor para atrair a atenção do leitor para uma obra que trata do sofrimento e da degradação humana de forma tão explicita e poética.

O riso é o riso da crueldade”
                  (Personagem What– em What –obra de Samuel Beckett)

Por acreditar que não se pode expressar racionalmente aquilo que é ilógico, o autor não faz uso do discurso racional e vale-se da expressão corporal de suas personagens para expressar a intenção de seu texto.

“Godot é uma parábola expressa como grande tributo ao poder do teatro, das artes cênicas. O texto é um exercício metafísico de reflexão sobre o ser empreendido por personagens que têm séculos de saudável irresponsabilidade: os palhaços de circo, com suas duplas de clown – Didio e Gogô, Pozzo e Lucky-, Beckett remete o espectador ao mesmo tempo para a filosofia e para o antigo teatro de variedades europeu, o circo, o teatro de revista. Sem a inclusão desse humor a peça seria mais que pessimista intolerável.”
                                                                                                               (Alberto Guzik)

Obra impactante, que espelha a trágica condição humana e que, por meio de uma linguagem cômica, expressa à dor profunda, o desespero contido, a tensão constante e angústia eminente a todos os seres humanos que se sentem incapazes e imobilizados diante da vida e que conscientes de sua condição existencial praticam ações inúteis apenas para passar o tempo enquanto esperam pelo enredo final, a morte.

 CONTEXTO HISTÓRICO:

A peça teatral Esperando Godot foi escrita no pós- guerra (1946/53), numa época em que as certezas e as crenças dos períodos anteriores haviam desaparecido por completo. Tudo que direcionava a sociedade anterior, bem como todos os paradigmas haviam perdido a credibilidade e homem encontrava-se perdido num mundo sem direção e repleto de questionamentos diante da vida.
A conseqüência trazida pelo terror do holocausto fez com que os escritores passassem a questionar sobre o modo de escrever sobre o ser humano. O homem tornara-se “inominável” e indecifrável.
A sociedade não acreditava mais em Deus e se questionava sobre o sentido da existência humana. A fé religiosa entrou em declínio e foi substituída pelas incertezas de um futuro promissor, dos valores norteadores das ações humanas, dos ideais e da ética que o homem deveria seguir.
O mundo moderno estava em constante transformação. O nacionalismo foi dilacerado pela guerra e o homem passou a se sentir um estranho diante de tantas desilusões.
Houve uma espécie de divórcio entre o homem e sua vida; entre o ator e o seu cenário. A sociedade foi privada da lembrança de uma pátria perdida e se viu descrente diante de tantos acontecimentos dolorosos e sanguinários. Os sentimentos do absurdo surgiram nas relações humanas modernas e foram representados nos palcos teatrais por meio dos textos de autores como Samuel Beckett.
A racionalidade humana havia desenvolvido os atos mais sórdidos e cruéis na luta pelo poder. Depois da tragédia causada pela guerra e pelo nazismo a sociedade não encontrava mais uma visão coerente da realidade que pudesse nortear as ações humanas.

TEMA:

O tema é a espera por Godot; a espera da morte e do nada. Para o autor a espera é o nosso estado natural, pois já nascemos condenados a morrer.
A obra é uma reflexão sobre a condição humana e trata de assuntos como o abandono, a solidão e o medo da extinção.

Estragon: (...) Vamo-nos embora daqui.
Vladimir: Não podemos.
Estragon: Por quê?
Vladimir: Estamos à espera de Godot
Estragon: Ah, é verdade! (...)
                                     (Vladimir e Estragon em Esperando Godot)

NARRATIVA:

Em Esperando Godot, ao contrário do texto do teatro tradicional, não há um enredo linear, com começo, meio e fim; em que a ação possa progredir gradualmente.
 A narrativa gira em torno de Vladimir e Estragon, dois mendigos caracterizados pela indolência e pelos gestos infantilizados, que estão sempre a esperar por Godot sob uma árvore à beira da estrada. Enquanto aguardam pelo misterioso Godot conhecem outra dupla de vagabundos, Pozzo e Lucky e recebem um mensageiro que sempre traz a notícia de que Godot não virá.
Vladimir e Estragon representam uma série de cenas cômicas, com diálogos incoerentes, jogos de linguagens e gestos circenses, apenas para passar o tempo.Nos dois atos da peça as personagens apresentam gestos, ações e perguntas repetitivas e esperam por algo que jamais chega, sem ter exatamente a certeza do que estão esperando.
O segundo ato é praticamente uma repetição do primeiro e apresenta episódios semelhantes como à surra de Estragon, o encontro com Pozzo e Lucky, o diálogo com o menino mensageiro, entre outros; todos com algumas alterações cênicas, mas com a mesma essência.
É importante observar que os dois atos da peça terminam da mesma forma; mais um dia que se foi inutilmente, Godot não apareceu e os mendigos Vladimir e Estragon pensam em partir:

Vladimir: Então, vamos embora?
Estragon: Vamos.
                                 (Vladimir e Estragon em Esperando Godot)


A narrativa sempre segue com a repetição do mesmo dia e com a incapacidade que seus personagens possuem de se localizar dentro do tempo e do espaço. Sem história e sem identidade, seus personagens estão à mercê da vida e a espera de uma possível salvação.
Perdem a localização espacial, já que os pontos de referência que dispõem como a árvore e a estrada são incertos tanto quanto o sentido de direção que lhes falta e que os obriga a simplesmente permanecer e esperar; as personagens não são atuantes em sua própria história.
A ação que motiva a cena vem da espera dos vagabundos Estragon e Vladimir pelo misterioso personagem Godot, que nunca aparece, mas que representa a esperança, a salvação e liberdade destes dois mendigos que encontram-se desesperados e impotentes diante de uma vida sem rumo e insignificante.

                                                Esperando Godot - Dir. Gabriel Vilela- Teatro Sesc Paulista (2006) 


              CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DA OBRA:

             Peça teatral escritas em dois atos. A obra não possui um enredo linear e nem uma intriga que se desenvolve  e é constituída por uma série de episódios cíclicos; que se repetem  continuamente. Suas personagens estão condenadas a viver permanentemente a mesma situação e praticam ações inúteis apenas para passar o tempo.
Toda a ação se desenvolve em torno de uma situação estática determinada: dois homens, sentados lado a lado, em silêncio (ou trocando palavras vazias), impregnados pela solidão e escravizados por uma rotina angustiante - situação que se desestabiliza no instante em que a dor de uma ausência é revelada.
Os críticos teatrais dizem que se trata de um “anti-peça”, pois nela nada acontece. É um teatro sem ação, repetitivo e linear.
É uma obra essencialmente trágica, que trata da sensibilidade do absurdo de uma forma cômica e original.
Nesta obra estão presentes as principais características da criação literária de Beckett; a imobilidade, a degradação física, a imprecisão histórica e espacial, a reflexão sobre a condição humana e a falta de sentido lógico na sucessão de eventos irrelevantes.
Porém, por se tratar de uma peça teatral, Esperando Godot se diferencia das demais obras literárias beckettianas porque a presença física do ator exige a representação concreta do texto e impossibilita a reflexão abstrata de um narrador indagativo que se auto-questione.
As personagens expressam fisicamente o absurdo de sua condição existência, por meio de uma série de atos banais e de diálogos e perguntas incoerentes e sem respostas concretas.
Por meio do humor caricato e de recursos circenses o autor apresenta a tragédia humana e parodia a expectativa do público que espera ser surpreendido por um acontecimento especial. Os atores estão imersos em uma encenação que expressam sentimentos de tédio e de angústia, causados pela ausência de acontecimentos e pela imobilidade e degradação das personagens, que esperam por algo incerto; o “ausente e presente” Godot.
Qualquer certeza na obra beckettiana é imediatamente relativizada.
O texto de Esperando Godot é repleto de gestos e movimentos repetitivos, de perguntas excessivas, de diálogos sem sentido aparente, de total imobilidade e falta de objetivo por parte das angustiadas e entediadas personagens que não encontram saída para o seu sofrimento e apenas esperam por algo que não sabem exatamente o que é.
Os movimentos cíclicos são apresentados em diversos episódios da peça, como um refrão que se faz ouvir por diversas vezes, como as trocas de chapéus entre Didi e Gogo, a maneira como olham insistentemente dentro de seus chapéus, como se tivessem buscando algo, entre outros.
     

PERSONAGENS:

                                  Esperando Godot - Dir. Gabriel Vilela- Teatro Sesc Paulista (2006) 

            Vladimirmendigo
            Estragon- mendigo
            Luckyservo
            Pozzosenhor
            Mensageirotraz notícias sobre Godot
            Godotpersonagem ausente
            
As personagens beckettianas são a antítese do herói burguês ativo e próspero. Sem objetivos definidos vivem uma sucessão de acontecimentos banais que não contribuem em nada para o seu progresso e desenvolvimento.

GODOT: 

Eruditos e acadêmicos procuram decifrar o mistério criado propositalmente por Beckett para a personagem Godot. Especula-se que o nome Godot seria composto de uma aglutinação do substantivo inglês “God” (Deus) com o sufixo diminutivo em francês ”ot” (geralmente empregado em diminutivos carinhosos como, por exemplo, Charlot).
Esta personagem também já foi interpretada como sendo a Liberdade, a Morte ou até mesmo uma alusão à Godeau, personagem de Balzac. O que vale ressaltar é que independe das interpretações dadas à esta personagem, Godot jamais pode ser uma certeza; não se trata de um enigma a ser desvendado.

Beckett foi incisivo quando indagado sobre o significado de Godot:

“Se eu soubesse, o teria dito na peça”
                                                                             (Samuel Beckett)

Exerce uma função importante na obra que é a de fazer esperar; ao longo da obra as personagens Didi e Gogô dizem, por treze vezes, que esperam por Godot. É essa espera que dá sentido a vida desses dois mendigos, que apenas sobrevivem em meio ao tédio ao abandono e depositam em Godot  a esperança da salvação deste mundo cruel e hostil a que estão destinados.
Godot é a personagem sempre esperada da obra, mas que nunca aparece; é uma ausência presente (elemento frequentemente encontrado na obra de Beckett). Esta misteriosa personagem também representa o desespero de uma vida sem sentido, incerta e sem direção. 
Por uma triste ironia da vida, a consagrada atriz brasileira Cacilda Becker sofreu um derrame cerebral enquanto encenava, ao lado de seu marido Walmor Chagas, a peça Esperando Godot e foi levada, ainda com o figurino da personagem, para o hospital. Faleceu após trinta e oito dias em coma; o que intrigou ainda mais o público que não pode deixar de comparar a espera da personagem por Godot com a infeliz morte de atriz.

  ANÁLISE DAS PERSONAGENS: 

           São incapazes de um diálogo coerente e de defender teorias, uma vez que a frágil memória, sempre prejudica o fluxo da conversação e da reflexão. Vladimir, aparentemente o mais forte da dupla, não responde às perguntas de Estragon, simplesmente porque não sabe como fazê-lo.
     Apesar da espera ser o fator motivacional de suas vidas, Vladimir e Estragon se quer possuem a certeza e a definição  do que realmente esperam; Vladimir chega mesmo a se questionar se Pozzo, ao entrar em cena, não seria Godot. As personagens beckettianas são seres abandonados pela vida e que sempre se interrogam sobre sua condição social e existencial.
O mendigo não tem objetivo e por isso o tempo para ele não existe. Não cria identidade com o universo em que vive, perde a noção de contexto e de espaço. Beckett humaniza o sofrimento do mendigo e mergulha nesse personagem tão sofredor, simultaneamente de forma trágica e cômica.
Todas as suas personagens têm dificuldade de locomoção, o que funciona como uma metáfora para a incapacidade que possuem de estabelecer objetivos, de tomar atitudes e de alcançar a prosperidade que transformaria suas vidas. É também impossível descrever fisicamente seus personagens; apenas sabemos que possuem alguma incapacidade física.
Estão perdidos num mundo hostil, monótono e solitário. Procuram sempre algo para matar o tédio e os distrair da tristeza e da angústia que sentem por terem a consciência do quanto são impotentes diante da vida.

  “Nada a fazer”
                                                             (Vladimir em Esperando Godot)
               
As personagens não se desenvolvem ao longo da peça. Fazem sempre as mesmas perguntas, comentem os mesmos erros e repetem discussões passadas. Não aprendem, não progridem, não evoluem e também não se comunicam.  
Embora estejam juntos e necessitem desesperadamente da companhia um do outro para que não fiquem na completa solidão, Vladimir e Estragon, assim como a dupla Pozzo e Lucky, falam o tempo todo, mas jamais se comunicam e carregam uma permanente tensão entre si encoberta pelo riso; o riso e os gestos clownenses brilhantemente utilizados por Beckett, para representar esse desespero contido.
O autor trabalha com a questão do duplo: a dupla de mendigos Vladimir e Estragon e dupla Pozzo e Lucky. Este último par ilustra claramente a relação de dependência mútua  que possuem (um diverte o outro e ajuda a passar o tempo enfadonho) e a questão dos dois temperamentos distintos que se complementam; estão fisicamente ligados por uma corda, são senhor e escravo respectivamente e embora Pozzo se mostre superior ao seu servo Lucky, não fica muito bem definido quem direciona essa relação. Além de cego e de necessitar de seu servo para se locomover, Pozzo é egocêntrico e necessita de Lucky para afirmar sua superioridade.
Percebemos um constante descompasso entre o passado e o presente das personagens; entre o que poderia ter sido e não é. Não possuem memória, portanto o passado não existe e não pode ensiná-los de seus erros. Sendo assim não evoluem, não agem e permanecem numa inércia constante. Também como não se comunicam, não conseguem refletir juntos e sair desta trágica situação.
São inertes ä sua condição e incapazes de agir decisivamente; também não morrem simplesmente ou desistem; nada fazem! Em tentativas patéticas de passar o tempo e presos numa repetição continua, se entregam a vida e agem como atores que encenam diariamente os mesmos espetáculos e cometendo sempre os mesmos erros em cena. 
 “Em Godot, afirma Robbe-Grillet, os personagens estão cerceados numa liberdade fundamental: eles não podem se ausentar do palco- é o trágico être-là; presenças permanentes, irremediáveis”.
(Fernando Peixoto – em Godot chegou para Beckett)

Mesmo com a opção de fugir, Vladimir e Estragon não o fazem, pois estão imersos em sua comodidade e são incapazes alguns episódios como, por exemplo, o da dança e o do discurso de Lucky, como o da discussão de tomar qualquer atitude válida.  Suas vidas apresentam um caráter artificial, reforçado entre Vladimir e Estragon ou como os das imitações banais de Pozzo e Lucky, entre outros.
Não compreendem o que está além de sua atuação e não são plenamente conscientes. Jamais se revoltam; são seres passivos e acomodados.

O AUTOR SAMUEL BECKETT:


O irlandês Samuel Beckett é o protótipo do escritor múltiplo, que sempre busca a inovação e destrói as fronteiras artísticas. Anti-realista compôs romances, novelas, peças de teatro, textos em prosa, ensaios, poemas, roteiro de cinema, críticas sobre pintura, traduções e textos radiofônicos.
             Nascido em 1906, em Foxrock, subúrbio abastado de Dublin iniciou sua carreira literária em 1930, com poemas e ensaios (um deles o poema Whoroscope, título composto pelas palavras prostitua e horóscopo). No ano seguinte escreve um ensaio sobre Marcel Proust.
Á partir de 1937 muda-se para Paris, onde participa da Resistência Francesa à Segunda Guerra Mundial. Em 1938 escreve, em inglês, seu primeiro romance, Murphy, que foi traduzido por ele para o francês, em 1947. Beckett construiu uma carreira bilíngüe, com obras escritas em inglês e em francês.
Na juventude foi secretário pessoal de James Joyce. Mais tarde afastou-se de Joyce para desenvolver seu próprio estilo literário; ao contrário dos textos de Joyce, a obra beckettiana trabalha com a redução da palavra. Beckett passou a escrever seus textos em francês, língua a qual não possuía domínio completo, justamente para que assim fosse obrigado a escrever menos. O autor acreditava que ao sabermos muito pouco sobre nós mesmos, nada temos a dizer; portanto a palavra deveria ser reduzida e não deveria comunicar.
Entre 1946 e 1949 escreveu os grandes romances Molloy, Malone Morre e o Inominável e na década de 50 inseriu sua narrativa nos palcos teatrais. Em 1953 revoluciona a linguagem teatral com a original obra Esperado Godot e por meio dela teve seu trabalho reconhecido internacionalmente.
Samuel Beckett é considerado um dos principais autores do denominado Teatro do Absurdo. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1969, foi um dos mais importantes escritores modernos.
Suas obras foram traduzidas em mais de trinta idiomas e apresentam um texto repleto de metáforas e uma reflexão sobre a condição humana.
Para o autor o ser humano é “condenado a nascer”. O homem nasce para morrer num mundo cruel e sem sentido.
Apesar de ateu era um profundo conhecer da Bíblia. Suas obras refletem o pensamento de um autor descrente; para quem não crê em Deus e não possui religião o mundo é um lugar sem respostas e tudo o que se pode obter dele é o eterno silêncio; o silêncio tão presente nas obras beckettianas.
Este dramaturgo pessimista e desconcertante escreveu uma série de peças, entre elas Fim de JogoComédiaNão Eu, a Última Gravação de KrappAto Sem PalavrasCatástrofeCaminhando Decididamente Rumo ao Silêncio e Vai e Vem (sua última peça). Porém, nenhum destes textos conseguiu causar o impacto fulminante que a obra Esperando Godot causou (e ainda causa) na platéia e na crítica literária daquela época.
Samuel Beckett faleceu, em Paris, em 22 de dezembro de 1989.

A OBRA E O TEATRO BECKETIANO: 

Beckett apresenta em seus textos uma continuidade estilística única e não admite qualquer concessão à sua proposta artística. A principal característica de sua obra é a palavra que não comunica!
Autor dos importantes ”anti-romances”, no sentido de que são textos que abandonam os valores romanescos e a convenções, que compõem a trilogia Molloy, Mallone Morre e o Inominável.
A obra beckettiana é anti-realista e não defende doutrinas, pelo contrário, demonstra uma total negação e satirizarão de toda e qualquer regra e certezas pré-estabelecidas.
A poética da negação e da redução, presente em Esperando Godot e característica da obra beckettiana culminaram no minimalismo, existente nos últimos contos e peças do autor.
O escritor trabalha com a descaracterização de tudo aquilo que humaniza. Cria personagens que possuem consciência da sua condição existencial e da morte que os espera; assim como todos nós também possuímos.
A questão dos duplos é sempre presente nas criações de Beckett e todos os seus pares apresentam uma relação de dependência mútua; são temperamentos que se complementam e apesar das constantes ameaças de separação, seus personagens jamais abandonam um ao outro como, por exemplo, as personagens Vladimir e Estragon, Pozzo e Lucky; em Esperando Godot, Hamm e Clov, Nell e Nag; em Fim de Partida, Molloy e Moran; em Molloy, entre outros.  

“Difíceis e desconcertantes, drama e prosa do autor de Esperando Godot recusam a acomodação de suas tensões internas em pares conceituais antípodas como otimismo/pessimismo ou realismo/absurdo. São formas de expressão pensada e cifrada de impasses estruturais que vão muito além de seus limites. Também por isso não cabem no simples comentário explicativo, nem se esgotam na decodificação erudita de suas referências e intertextos, mesmo que, para tanto, se multiplique, a cada ano, um exército de especialistas.”                                                                        
                                                                (Fábio de Souza Andrade)


 Beckett em seu ensaio, Proust, escrito em 1931, afirma que não existe uma relação humana sincronizada entre dois sujeitos; o que demonstra um desajuste inerente ao homem e ao seu objeto de desejo causado pelo momento do tempo, ou seja, a cada momento de tempo o homem apreende seu objeto de forma distinta. Quando ao autor trabalha seus pares percebe-se essa mesma incompatibilidade entre as personagens, que embora se complementem estão sempre em um constante descompasso, principalmente quando dialogam entre si.
O minimalismo presente em sua obra bem como a presente nudez em suas peças teatrais representa a nudez humana; o homem moderno leva uma vida sem sentido e angustiante, num mundo hostil e incerto.
As personagens de Beckett são seres que sobraram na vida e são desprovidas de memória; quem não tem memória não tem passado e, portanto, não tem referência e identidade com nada e nem ninguém. Por isso, os objetos de cena são tão importantes em suas obras, pois aquele que nada possui tende a se apegar a qualquer objeto que consiga obter; em Esperando Godot, por exemplo, os mendigos Vladimir e Estragon criam uma profunda relação de identidade entre os poucos objetos que possuem, principalmente com seus chapéus.
Beckett quebra a denominada “quarta parede” do teatro realista, com referências das personagens ao público que assiste ao espetáculo; uma negação beckettiana às regras e às convenções do teatro tradicional. Usa personagens clownescos para amenizar o discurso trágico de suas peças. 
          A preocupação do autor não está em mostrar o absurdo da existência a partir da vida social, mas a de expressar o choque do homem consigo mesmo e extraindo assim, do seu íntimo, a perplexidade deste encontro.

 O TEMPO NA OBRA DE BECKETT: 

 O tempo em Beckett não existe senão como uma eternidade imóvel e morta que se expressa por meio da degeneração física dos corpos. 
 O homem é consciente de que a cada segundo que passa em sua vida ele caminha em direção  ao seu destino final; a morte.
             Em Godot, percebemos a passagem do tempo quando a árvore passa a adquirir folhas e quando as botas já não calçam mais os pés inchados das personagens. Apesar de não perceber o tempo e não se direcionar no espaço o mendigo beckettiano, assim como qualquer outro ser humano, está sujeito a degradação de seu físico dada pela passagem dos dias e ao tédio causado pelas horas que passam sem nenhum acontecimento importante. Diante de tanta inércia e solidão o que lhe resta é esperar que a vida se encarregue da ação final.


 O TEATRO DO ABSURDO: 

               Na história das artes cênicas a obra de Samuel Beckett está inserida dentro do que convencionalmente foi denominado de O Teatro do Absurdo; que inclui autores como Ionesco, Genet e Adamov. Porém, deve-se tomar cuidado ao “rotular” a escrita beckettiana e ao inseri-la na mesma proposta de Camus e Sartre, caracterizados como “pais” do existencialismo moderno e do conceito de absurdo.

“Ao contrário dos existencialistas, o romance não está a serviço da demonstração de doutrinas, muito menos o indivíduo que interessa aparece como uma abstração imutável, uma essência atemporal. Além da substância histórica, sua prosa apresenta uma evolução interna ä obra beckettiana que a torna inconfundível, da mesma forma que suas criaturas”

 (Fábio de Souza Andrade- em Sempre Menos, quase Nada: A Retratação do Espaço no Romance Beckettiano)

           Ao contrário do Teatro Realista, o Teatro do Absurdo (termo criado pelo austríaco Martin Esslin), não tem por objetivo apresentar informações sobre o destino de seus personagens e nem de desenvolver intrigas que possam direcionar história e se desenvolver em um enredo linear (com começo, meio e fim).  Os dramaturgos deste tipo de espetáculo tratam a realidade de forma inusitada e impactante.

“É uma forma do teatro moderno que utiliza para a criação do enredo, das personagens e do diálogo elementos chocantes do ilógico, com o objetivo de reproduzir diretamente o desatino e a falta de soluções em que estão imersos o homem e sociedade. O inaugurador desta tendência teria sido Alfred Jerry. “

O autor do Teatro do Absurdo não propõe teses e não debate ideologias. Recusa totalmente as regras do teatro tradicional, apresenta personagens que são conscientes da sua trágica condição humana e falta de significado de sua existência e escreve sobre sentimentos de desespero e de  angústia, sem a ilusão da ficção.

“A única resposta está na experiência direta, e no teatro é possível experimentar a realidade absoluta da extraordinária presença do vazio, em contraste com a estéril de uma cabeça entulhada de pensamentos.”    
                                                                                                                    (Peter Brook) 

      CONCLUSÃO:

              A obra Esperando Godot é o oposto daquilo que o público espera de uma peça teatral; em Godot nada acontece nada surge e tudo se espera. Beckett alcançou com esta obra-prima a essência da alma humana, que se encontra repleta de angústia, de medo, de desespero e de impotência diante de tantas desilusões.
De modo cômico e poético expressou o pessimismo, o desconforto e a trágica condição humana e espelhou em suas personagens a ansiedade, a passividade e a dor existencial, presentes em todos àqueles que já não encontram saída para o seu sofrimento e se vêem descrentes e perdidos diante de um mundo hostil e severo.
Beckett desintegrou todas as regras teatrais e todos os elementos romanescos. Sua obra não é uma representação do mundo externo, mas uma expressão dos sofrimentos mais profundos de um homem inerentemente incapaz de ter consciência plena, de se orientar, de se comunicar e de agir.   Enigmatico e fascinante seu texto nos conduz a uma profunda reflexão sobre o sentido da vida e sobre os valores que passamos a cultivar enquanto nos ocupamos em manter a nossa sobrevivência. A personagem beckettiana é definida pela negação; pela demonstração nítida e escancarada de aquilo que poderia ter sido e não e que, portanto consegue despertar no espectador os mais incômodos sentimentos como, por exemplo, os de impotência e de frustração diante da vida.

      BIBLIOGRAFIA: 

 ·            BECKETT, Samuel. Esperando Godot. Tradução Fábio de Souza Andrade.São Paulo: Ed. Cosac Naify,2005..
·         MANZANO, Thais Rodegheri. Artimanhas da Ficção: Ensaios de Literatura. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2008.
·         ANDRADE, Fábio de Souza. Sempre menos,quase nada: A retratação do espaço no romance Beckettiano. São Paulo: Cultura Vozes,1996.
·         BERRETINI, Célia. A linguagem de Beckett.São Paulo: Perspectiva, 1977.
·         PRADO, Décio de Almeida. Esperando Godot in teatro e progresso- Crítica Teatral..São Paulo: Editora Martins Fontes, 1964.
·         PEIXOTO, Fernando. Godot chegou para Beckett in Teatro em questão. São Paulo: Editora Hucitec, 1989.
·         ESSLIN, Martin. O Teatro do Absurdo. Tradução de Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar,1968.
·         KENNEDY, Andrew K. Waiting for Godot and Endgame :  Action and theatricality in Waiting for Godot. London: Editora Macmillan, 1992.
·         ESSLIN, Martin. Beckett: a busca do eu. In: O Teatro do Absurdo. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar,1968
·         ANDRADE, F.de . Samuel Beckett: o silêncio possível. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2005.
·         SARTRE, J.P. O Ser e o Nada. São Paulo: Editora Vozes, 2003.
·         ARTAUD, A. O Teatro e seu Duplo. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1999.


                       Esperando Godot - Dir. Gabriel Vilela- Sesc Paulista (2006) 


OBS.: VOCÊ PODE COPIAR ESTE TEXTO DESDE QUE CITE O AUTOR E O SITE ( http://cenarioartistico.blogspot.com) . ESTE  TEXTO É DE AUTORIA DE MARIANNA F. SANTORO

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